PROJETOS
Iniciativa do Instituto Mancala une formação científica, pesquisa aplicada e escuta comunitária para desenvolver soluções tecnológicas conectadas às necessidades dos territórios
Quem produz ciência também participa das decisões sobre quais problemas precisam ser pesquisados, quais tecnologias serão desenvolvidas e quais caminhos serão considerados para o futuro. No Brasil, porém, a presença de pessoas negras e indígenas ainda é desigual nos espaços de liderança científica, tecnológica e institucional.
Buscando contribuir para a mitigação desse problema surge o Programa Mukengi, iniciativa do Instituto Mancala voltada à formação e fortalecimento da pesquisa aplicada. O Mukengi busca impulsionar pesquisadores e pesquisadoras negros (as) e indígenas para que possam ocupar os espaços de produção de conhecimento trazendo consigo as suas vivências.
Inclusive, vale dizer que o nome do programa também carrega essa perspectiva. Mukengi, palavra de origem Kimbundu, língua de matriz banto falada principalmente no noroeste de Angola, significa “pesquisador”.
O Mukengi não trabalha com a ideia de entregar soluções prontas para as comunidades. A metodologia desenvolvida pelo Instituto Mancala combina formação científica e crítica, mentoria, mobilização e pesquisa aplicada.
Isso significa pesquisar com as comunidades e não apenas pesquisar as comunidades. O conhecimento científico dialoga com saberes tradicionais, em vez de tratar esses conhecimentos como algo separado da ciência.
E, para além, o programa gera “aquilombamento” - ou seja - um senso importante de comunidade e pertencimento, como relata Ilana Santos, participante da edição de 2023: “Mais do que uma formação, o Mukengi representou um espaço de reconhecimento e pertencimento, reafirmando a legitimidade de produzir conhecimento enraizado no respeito e na escuta das comunidades.”
ZIlda Souza, também ex-participante, comenta sobre o quão importante foi sua participação para seu desenvolvimento enquanto pesquisadora: “Participar do Mukengi foi um marco transformador: fortaleceu meu compromisso de colocar o conhecimento acadêmico a serviço da comunidade, da soberania alimentar e da autonomia quilombola.”
Ao longo de suas 3 edições, passaram pelo Mukengi 62 pesquisadores e pesquisadoras, da graduação ao doutorado. A rede é formada majoritariamente por pessoas pretas e pardas, além de participantes indígenas, o que também transforma o programa em uma rede de pertencimento e acolhimento.
A descentralização também é parte importante da proposta. Entre os participantes, 43,3% estão no Nordeste e 40,3% no Sudeste, além de representantes do Centro-Oeste, Norte, Sul e uma participação internacional de Moçambique. A estratégia busca aproximar a produção científica de territórios que historicamente recebem menos investimentos em ciência e tecnologia.
Como resultado, são desenvolvidos os chamados Projetos Mobilizadores Multidisciplinares. Um deles é o Onde Tem Fome?, um sistema participativo de monitoramento da insegurança alimentar que combina coleta comunitária de dados, georreferenciamento e análise automatizada. A ferramenta busca apoiar comunidades e instituições na identificação de situações e níveis de insegurança alimentar em seus territórios, permitindo o acompanhamento dos casos e a adoção de medidas de intervenção antes que essas situações se agravem.
Outro exemplo é o Reciclo, plataforma voltada à economia circular que conecta comunidades, cooperativas e empresas interessadas na compra e venda de materiais recicláveis. A iniciativa também busca contribuir para a geração de renda e a sustentabilidade ambiental, com atenção a cooperativas periféricas e quilombolas.
Já o Tekoa trabalha com autonomia energética comunitária. Inspirado no termo guarani tekoá, o projeto combina conhecimento ancestral e tecnologia digital para pensar o uso coletivo e inteligente da energia, com foco em comunidades quilombolas e rurais do Nordeste.
O resultado principal do Mukengi, portanto, não está apenas no número. Está na construção de uma rede capaz de continuar produzindo conhecimento mesmo depois da formação.
A proposta é que essas pessoas possam atuar como multiplicadores fortalecendo os próprios territórios. Essa mudança também passa por reconhecer que ciência e tecnologia não são produzidas em um único lugar, mas a variedade de visões e vivência é o que nos faz progredir.
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Quem produz conhecimento também ajuda a definir quais futuros são possíveis. É a partir dessa ideia que atua o Instituto Mancala, organização dedicada à promoção da ciência, da tecnologia e da inovação como ferramentas de transformação social e de enfrentamento às desigualdades raciais sob a perspectiva negra e indígena.
O Instituto trabalha para ampliar a presença de pessoas negras e indígenas nos espaços de produção de conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Isso significa não apenas criar oportunidades de formação, mas também questionar quem está no centro das decisões, quais conhecimentos são considerados relevantes e quem se beneficia das inovações que estão sendo produzidas.
A atuação do Mancala passa por pesquisa, formação, desenvolvimento de tecnologias e construção de projetos voltados às necessidades de comunidades historicamente afetadas pelas desigualdades. A proposta é aproximar conhecimento e realidade, criando caminhos para que diferentes vivências possam participar da construção das tecnologias que irão impactar nossos futuros.
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