PROJETOS

Programa Mukengi coloca pesquisadores (as) negros (as) e indígenas no centro da produção científica

Iniciativa do Instituto Mancala une formação científica, pesquisa aplicada e escuta comunitária para desenvolver soluções tecnológicas conectadas às necessidades dos territórios

Botons do Programa Mukengi

Quem produz ciência também participa das decisões sobre quais problemas precisam ser pesquisados, quais tecnologias serão desenvolvidas e quais caminhos serão considerados para o futuro. No Brasil, porém, a presença de pessoas negras e indígenas ainda é desigual nos espaços de liderança científica, tecnológica e institucional.

Buscando contribuir para a mitigação desse problema surge o Programa Mukengi, iniciativa do Instituto Mancala voltada à formação e fortalecimento da pesquisa aplicada. O Mukengi busca impulsionar pesquisadores e pesquisadoras negros (as) e indígenas para que possam ocupar os espaços de produção de conhecimento trazendo consigo as suas vivências.

Inclusive, vale dizer que o nome do programa também carrega essa perspectiva. Mukengi, palavra de origem Kimbundu, língua de matriz banto falada principalmente no noroeste de Angola, significa “pesquisador”.

Ciência que parte do território

O Mukengi não trabalha com a ideia de entregar soluções prontas para as comunidades. A metodologia desenvolvida pelo Instituto Mancala combina formação científica e crítica, mentoria, mobilização e pesquisa aplicada.

Isso significa pesquisar com as comunidades e não apenas pesquisar as comunidades. O conhecimento científico dialoga com saberes tradicionais, em vez de tratar esses conhecimentos como algo separado da ciência.

Pesquisadores da terceira edição do Programa Mukengi durante o I Encontro Científico Mukengi
Foto: Pesquisadores da terceira edição do Programa Mukengi durante o I Encontro Científico Mukengi, realizado em Salvador/BA, em julho de 2025. O evento reuniu pesquisadores, representantes de comunidades e potenciais financiadores em um espaço de diálogo e construção conjunta, no qual os pesquisadores apresentaram suas propostas de pesquisa e, a partir das trocas com as comunidades, discutiram e construíram caminhos para o desenvolvimento dos projetos.

E, para além, o programa gera “aquilombamento” - ou seja - um senso importante de comunidade e pertencimento, como relata Ilana Santos, participante da edição de 2023: “Mais do que uma formação, o Mukengi representou um espaço de reconhecimento e pertencimento, reafirmando a legitimidade de produzir conhecimento enraizado no respeito e na escuta das comunidades.”

ZIlda Souza, também ex-participante, comenta sobre o quão importante foi sua participação para seu desenvolvimento enquanto pesquisadora: “Participar do Mukengi foi um marco transformador: fortaleceu meu compromisso de colocar o conhecimento acadêmico a serviço da comunidade, da soberania alimentar e da autonomia quilombola.”

De pesquisadores a protagonistas da inovação

Ao longo de suas 3 edições, passaram pelo Mukengi 62 pesquisadores e pesquisadoras, da graduação ao doutorado. A rede é formada majoritariamente por pessoas pretas e pardas, além de participantes indígenas, o que também transforma o programa em uma rede de pertencimento e acolhimento.

A descentralização também é parte importante da proposta. Entre os participantes, 43,3% estão no Nordeste e 40,3% no Sudeste, além de representantes do Centro-Oeste, Norte, Sul e uma participação internacional de Moçambique. A estratégia busca aproximar a produção científica de territórios que historicamente recebem menos investimentos em ciência e tecnologia.

Como resultado, são desenvolvidos os chamados Projetos Mobilizadores Multidisciplinares. Um deles é o Onde Tem Fome?, um sistema participativo de monitoramento da insegurança alimentar que combina coleta comunitária de dados, georreferenciamento e análise automatizada. A ferramenta busca apoiar comunidades e instituições na identificação de situações e níveis de insegurança alimentar em seus territórios, permitindo o acompanhamento dos casos e a adoção de medidas de intervenção antes que essas situações se agravem.

Outro exemplo é o Reciclo, plataforma voltada à economia circular que conecta comunidades, cooperativas e empresas interessadas na compra e venda de materiais recicláveis. A iniciativa também busca contribuir para a geração de renda e a sustentabilidade ambiental, com atenção a cooperativas periféricas e quilombolas.

Lançamento do Reciclo no Fórum Estadual de Desenvolvimento Sustentável e das Catadores e Catadores de Material Reciclável do Maranhão
Foto: o Instituto Mancala, por meio dos pesquisadores selecionados no Projeto Mukengi 2024, Paula Mota e Elmo Ferreira, lançou o Reciclo no Fórum Estadual de Desenvolvimento Sustentável e das Catadores e Catadores de Material Reciclável do Maranhão.

Já o Tekoa trabalha com autonomia energética comunitária. Inspirado no termo guarani tekoá, o projeto combina conhecimento ancestral e tecnologia digital para pensar o uso coletivo e inteligente da energia, com foco em comunidades quilombolas e rurais do Nordeste.

Visita técnica do pesquisador do Programa Mukengi Danilo Cesar à CSA Yvy Porã
Foto: Visita técnica do pesquisador do Programa Mukengi Danilo Cesar à CSA Yvy Porã, junto ao agricultor indígena Gwiri Kaiowá, responsável pelo local, para preparação da implementação da ferramenta Tekoa.

O resultado principal do Mukengi, portanto, não está apenas no número. Está na construção de uma rede capaz de continuar produzindo conhecimento mesmo depois da formação.

A proposta é que essas pessoas possam atuar como multiplicadores fortalecendo os próprios territórios. Essa mudança também passa por reconhecer que ciência e tecnologia não são produzidas em um único lugar, mas a variedade de visões e vivência é o que nos faz progredir.

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Sobre o Instituto Mancala

Quem produz conhecimento também ajuda a definir quais futuros são possíveis. É a partir dessa ideia que atua o Instituto Mancala, organização dedicada à promoção da ciência, da tecnologia e da inovação como ferramentas de transformação social e de enfrentamento às desigualdades raciais sob a perspectiva negra e indígena.

O Instituto trabalha para ampliar a presença de pessoas negras e indígenas nos espaços de produção de conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Isso significa não apenas criar oportunidades de formação, mas também questionar quem está no centro das decisões, quais conhecimentos são considerados relevantes e quem se beneficia das inovações que estão sendo produzidas.

A atuação do Mancala passa por pesquisa, formação, desenvolvimento de tecnologias e construção de projetos voltados às necessidades de comunidades historicamente afetadas pelas desigualdades. A proposta é aproximar conhecimento e realidade, criando caminhos para que diferentes vivências possam participar da construção das tecnologias que irão impactar nossos futuros.

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