ARTIGOS
Por Fabrício Albuquerque, James Brito e Hegair das Neves
Embora não exista uma única definição de política pública, podemos entendê-la como um conjunto de ações, programas e decisões desenvolvidos pelo Estado para enfrentar problemas que afetam a sociedade. Essas políticas podem ser direcionadas à população em geral ou a grupos específicos. Um exemplo é o Seguro-Defeso, que garante um benefício aos pescadores artesanais durante períodos em que a pesca de determinadas espécies é proibida, contribuindo para que a interrupção temporária da atividade seja possível. Nesse caso, a atuação do Estado é fundamental para estabelecer as regras, realizar o pagamento e fiscalizar sua implementação. Outras políticas, porém, dependem de uma participação mais direta da população. É o caso das políticas de manejo integrado do fogo, que reconhecem inclusive o uso tradicional do fogo por povos indígenas, comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Quando falamos de biodiversidade, essa participação popular se torna ainda mais importante. As comunidades tradicionais mantêm relações históricas com seus territórios e desenvolvem conhecimentos e práticas relacionados ao uso, manejo e conservação dos bens da natureza. O próprio Decreto nº 6.040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, reconhece que esses povos utilizam os territórios e recursos naturais para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, a partir de conhecimentos e práticas transmitidos pela tradição. A política também estabelece a participação das comunidades na elaboração, monitoramento e execução das ações governamentais.
Na Trilha de Aprendizagem, essa relação entre políticas públicas e biodiversidade pôde ser observada a partir das próprias experiências compartilhadas pelas lideranças. Foram apresentadas diferentes formas comunitárias de cuidado e manejo que contribuem, na prática, para a conservação dos territórios: o reflorestamento e a diversificação dos cultivos; a manutenção dos sistemas agrícolas e da pesca tradicional; o manejo dos igarapés e os conhecimentos sobre a extração da bacaba; a valorização e o manejo das sempre-vivas e o turismo de base comunitária; além da preservação dos conhecimentos sobre plantas medicinais destacados. Essas experiências mostram que a implementação de políticas de biodiversidade não acontece somente por meio de órgãos públicos ou implementação de unidades de conservação: ela também acontece cotidianamente nos territórios, por meio das práticas e conhecimentos das próprias comunidades.
Ao mesmo tempo, ameaças como grilagem, falta de regularização fundiária, mineração, desmatamento, queimadas, urbanização, poluição e perda de espécies e plantas utilizadas tradicionalmente são reconhecidos nos territórios. Esse cenário ajuda a mostrar por que a participação comunitária é fundamental para que as políticas públicas respondam aos problemas concretos dos territórios. Mais do que receber políticas prontas, as comunidades podem contribuir para identificar problemas, produzir conhecimentos, definir prioridades, manejar recursos, monitorar mudanças, propor soluções e acompanhar a implementação das ações públicas.
Assim, a contribuição dos povos e comunidades tradicionais para as políticas de biodiversidade pode ser compreendida em duas dimensões complementares: eles são sujeitos de direitos e, ao mesmo tempo, agentes fundamentais da conservação. A Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais reconhece justamente essa relação ao buscar garantir direitos territoriais, sociais, ambientais, econômicos e culturais, e, valorizar os conhecimentos, práticas e formas de organização desses grupos. No entanto, ainda segue um questionamento: se as comunidades já desenvolvem práticas que contribuem para conservar a biodiversidade, como as políticas públicas podem reconhecer, fortalecer e apoiar essas iniciativas em vez de simplesmente criar ações para elas?
Quem produz conhecimento também ajuda a definir quais futuros são possíveis. É a partir dessa ideia que atua o Instituto Mancala, organização dedicada à promoção da ciência, da tecnologia e da inovação como ferramentas de transformação social e de enfrentamento às desigualdades raciais sob a perspectiva negra e indígena.
O Instituto trabalha para ampliar a presença de pessoas negras e indígenas nos espaços de produção de conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Isso significa não apenas criar oportunidades de formação, mas também questionar quem está no centro das decisões, quais conhecimentos são considerados relevantes e quem se beneficia das inovações que estão sendo produzidas.
A atuação do Mancala passa por pesquisa, formação, desenvolvimento de tecnologias e construção de projetos voltados às necessidades de comunidades historicamente afetadas pelas desigualdades. A proposta é aproximar conhecimento e realidade, criando caminhos para que diferentes vivências possam participar da construção das tecnologias que irão impactar nossos futuros.
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